HISTÓRIA DA ARQUITETURA INDIANA

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A arquitetura indiana compreende o conjunto de tradições que, a partir do terceiro milênio a.C., dominou a construção no subcontinente indiano (Índia, Paquistão, Sri Lanka), com reflexos na Indochina e Indonésia. Abrange desde magníficos templos de hinduístas, budistas, jainistas e muçulmanos, até os modernos edifícios cuja construção começou a partir da dominação britânica.

De origem essencialmente religiosa, a arquitetura indiana acabou por assimilar, durante a colonização européia e a ocupação britânica, os estilos europeus de construção.

Vale do Indo
A primeira civilização urbana de que se tem notícia desenvolveu-se no vale do rio Indo, no atual Paquistão. Mohenjo-daro, a "colina dos mortos", Harappa e Kalibangan são os sítios mais importantes dessa cultura. Trata-se de um conjunto de ruínas de três cidades superpostas. O plano de uma delas deixa ver uma trama regular de ruas e avenidas, algumas de 7,5m de largura, com prédios de vários andares. As construções eram de tijolos semelhantes aos atuais, mas não utilizavam colunas. Uma das ruínas mais imponentes é a de um balneário, talvez usado em cerimônias religiosas. Há restos de um enorme templo sob as ruínas de um templo budista posterior, o que impede a escavação. Esses sítios são os exemplos mais antigos de povoações previamente planejadas e construídas com método.

Período Mauria
Após a expulsão dos gregos, que, liderados por Alexandre o Grande, invadiram a Índia em 326 a.C., estabeleceu-se o império Mauria, que introduziu o budismo no país. Seu auge aconteceu sob o reinado de Açoka, época em que surgiram os primeiros monumentos em pedra, de influência grega, como o palácio de Pataliputra, centro político do reino. Entre os templos, que se adaptaram ao budismo professado pelo imperador, destacam-se os estupas, monumentos funerários, de forma hemisférica e que indicam estar enterrada no local uma relíquia sagrada, como o grande estupa de Sanchi.

Esse período marcou o início da arquitetura em pedra, que imitava construções religiosas em madeira, já desaparecidas. A forma típica da arquitetura Mauria é o templo budista escavado na rocha. O templo de Lomas Rsi, nas montanhas de Barabar (século III a.C.), representa essa fase: ao portal, cuja decoração imita o ornato em madeira, segue-se uma câmara retangular, que conduz a um aposento circular, de teto abobadado. A segunda câmara é o estupa. As paredes, sem decoração, são cuidadosamente polidas.

São também construções típicas da época Mauria grandes pilares circulares de pedra, com capitel campaniforme, que sustentam esculturas animais simbólicas. O mais famoso desses monumentos é o capitel de leões erguido em Sarnath, onde Buda pregou seu primeiro sermão. Com a destruição do império Mauria, poucas décadas após a morte de Açoka, floresceram as dinastias Sunga, no Ganges, e Andhra, na costa sudeste (século II a.C. a II d.C.)


Período Sunga e Andhra
A obra-prima do período Sunga é o grande estupa de Bharhut, na Índia central (atual Madhya Pradesh), que data aproximadamente do século II a.C. Outros templos (caitya) dessa dinastia são os de Bhaja e Kondane, perto de Bombaim, verdadeiras catedrais budistas, cujo interior era dividido, por fileiras de colunas, em nave principal e alas laterais. No fundo, de planta semicircular e teto abobadado, ergue-se o estupa, principal elemento do culto. Acredita-se que tanto o estupa como o santuário têm implicações simbólicas em relação ao cosmo.

O grande estupa de Sanchi, do período Andhra (por volta de 75 a.C.), tem como característica principal quatro toranas (pórticos) profusamente ornamentados, num violento contraste com o interior despojado da caitya. Os mosteiros jainas Udayagiri e Khandagiri, em Orissa, datam provavelmente do começo da era cristã; lavrados na rocha, sobreviveram às vicissitudes da história e ao clima subtropical.

Período Kushan
O ponto alto da arquitetura Kushan é o famoso templo de Mahabodhi, em Buddh Gaya, originalmente erguido no século II da era cristã para marcar o local onde Buda atingiu a iluminação. O monumento sofreu numerosos acréscimos e restaurações até o século XIX. A forma original é o retângulo de 6 por 15m, sobre o qual se eleva uma torre de 55m de altura, em forma de pirâmide truncada (sikhara). Uma restauração, no século XIX, eliminou o elemento mais importante: arcos e abóbadas pontiagudas na câmara interior, de origem obviamente não-indiana.

Períodos Gupta e Chalukya
No princípio do século IV, a dinastia Gupta expulsou os Kushan e organizou um novo império, com capital em Pataliputra. É desse período a cidade de Aihole, que segue um plano arquitetônico diferente. O período Gupta marca o início do apogeu da arquitetura indiana e a difusão de sua estrutura mais característica: um templo de base quadrada e uma torre piramidal, de linhas retas ou curvas e amplamente decorado com ornamentos arquitetônicos ou figurativos.

O principal templo budista do período Gupta é o de Ajanta, na verdade uma sucessão de trinta santuários cavados na pedra e admirados por sua rica decoração pictórica. Quanto a templos hinduístas, o mais antigo conhecido é o de Ugayagiri, junto a Bhilsa, no Bhopal (século IV). Escavado na rocha, esse templo foi imitado em Badami e Pattadkal.

A evolução do templo estrutural pode ser traçada a partir do templo de Vishnu, em Deogarh, do período Chalukya: simples quadrado murado, com pórtico de acesso e falsas janelas, cada qual exibe um relevo que representa um dos avatares da divindade, tudo sob pesada sikhara. A maioria dos monumentos Chalukya são templos dedicados as divindades hinduístas, principalmente Shiva, Vishnu e Durga, como as cavernas de Badami e Ellora e os templos de alvenaria de Aihole, Badami e Pattadakal.

Período medieval. A arquitetura indiana do período medieval, de base hinduísta, apresenta-se em dois estilos: o meridional e o setentrional. Essa divisão se baseia no formato da sikhara. A sikhara setentrional ou ariana, composta de várias camadas horizontais que se afinam no cimo, ostenta no ápice a amalaka (grande pedra em forma de cogumelo estriado), o que pode ser visto nos santuários de Bhudaneswar, em Orissa. A sikhara meridional possui apenas de três a cinco segmentos horizontais, limitados por pesadas cornijas. No cimo exibem, em lugar da amalaka, uma cúpula quadrada ou octogonal, chamada stupika. No templo de Aihole, aproximadamente do ano 600, os dois tipos de sikhara ocorrem simultaneamente.

Na Índia meridional situam-se ainda os sete santuários de Mamallapuram, próximo a Madrasta, do ano 640 aproximadamente, famoso monumento escavado, cada qual em um gigantesco penedo e segundo modelos arquitetônicos distintos. O templo da Montanha Sagrada (Kailasanatha), em Ellora, escavado na pedra entre os séculos VIII e X, é um dos principais monumentos da arquitetura do período. Da mesma época é também o estilo dravídico, cujo exemplo mais puro é o templo de Malegitti Sivalaya, do início do século VIII. Seus últimos grandes centros foram Vijayanagar e Madura, já durante as invasões muçulmanas. O período medieval é caracterizado pelo desenvolvimento das mandapas, imensos saguões.

Sri Lanka, Indochina e Indonésia. Os templos de Anuradhapura, antiga capital budista do Sri Lanka (antes Ceilão), foram erguidos a partir do século III a.C., assim como santuários (dagobas) e estupas. Os melhores exemplos da arquitetura khmer no Camboja são os templos de Angkor Wat e Bayon, respectivamente dos séculos XII e XIII.

O grande santuário de Borobudur, o mais nobre monumento arquitetônico de Java, representa a ilustração do cosmo e simboliza os mundos material e espiritual de Buda. Sua estrutura se resume no perfil hemisférico de um gigantesco estupa e contém uma pirâmide em degraus (parasada).

Períodos muçulmano e mogol. Os muçulmanos, que já invadiam a Índia para pilhar as ricas cidades desde o século VIII, se estabeleceram no norte do país a partir do século XIII. A chamada torre de Vitória, ou Qutb Minar, de 73 metros de altura, é o marco da arquitetura muçulmana na Índia. Foi erguida em Delhi, por volta de 1200. Seu modelo arquitetônico predominou até o século XIX nas regiões subjugadas pelo Islã. A mesquita de Quwat-ul-Islam foi construída entre 1206 e 1290, com restos de material de templos hindus devastados. A grande mesquita de Ahmed, inspirada nos templos jainas do monte Abu, data do começo do século XIII.

No princípio do século XVI, os mogóis, grupo islâmico de cultura persa, invadiram e dominaram boa parte da Índia, liderados por Baber. A invasão mogol representou o renascimento da arquitetura islâmica no norte da Índia: os estilos persa e indiano, entre outros, fundiram-se com êxito em obras de raro refinamento e qualidade. São exemplos de monumentos desse período o grande forte de Agra (século XVI) e a mesquita de Jami Masjid, em Fatehpur Sikri.

O mais expressivo monumento da arquitetura indiana de influência islâmica é o Taj Mahal, túmulo erguido por xá Jahan entre 1632 e 1649, para sua favorita, Mumtaz Mahal. Em mármore branco, ricamente decorado com incrustações de pedras semipreciosas e cercado por magníficos jardins, é considerado uma das obras-primas da arquitetura mundial.

Tradições européias e período contemporâneo. Desde o século XVI começaram a surgir na Índia construções inspiradas na arquitetura européia, embora muitas vezes incorporassem fortes elementos nativos. Pelo menos algumas dessas obras tinham grande valor, sobretudo a arquitetura barroca da colônia portuguesa de Goa, onde se ergueram esplêndidos edifícios na segunda metade do século XVI. Algumas dessas construções sobreviveram, e entre as mais famosas delas está a igreja de Bom Jesus, começada em 1594 e terminada em 1605.

Nos séculos XVIII e XIX ergueram-se diversas construções de estilo neoclássico em áreas controladas ou influenciadas pelos europeus. Após a ocupação britânica, a arquitetura tradicional praticamente desapareceu, apesar das tentativas de mesclar as tradições autóctones com as técnicas ocidentais. Particularmente importante é o projeto de Le Corbusier para a nova capital do Punjab, Chandigarh, com a colaboração de diversos arquitetos locais. Outros mestres americanos e europeus também contribuíram para criar um movimento arquitetônico moderno, de grande vitalidade, que está em processo de adaptação às necessidades e tradições locais.